quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Queda silenciosa para cima









De tanto olhar, esquecer.
De tanto esquecer, lembrar.
Lembrar do que foi esquecido para poder olhar.
Olhar sem pensar no que foi deixado, no que foi mudado, no que será.
Mas e o desejo?
Esse vento que sopra forte sobre nossas costas arqueadas e nossas bocas abertas de espanto.
Vento que engasga, que atordoa, que confunde.
Quem é o outro? Conhecido? Estranho?
Ah, o vento!
Vento que orienta, desorientado.
Vento que parte ao meio e encaixa.
Vento que ergue numa queda silenciosa.

A cura do poeta

O poeta escreveu, mas sua poesia de imagens fortes e frases bem colocadas não cessou a sua dor, não cessou a guerra, não cessou o ódio.

Sua poesia, única e incapaz, não tornou o homem mais inteligente, não tornou o homem mais pacífico, não tornou o homem mais amado, mais amante.

Não tornou o homem mais homem.

Sua poesia de frases feitas circula como receita do remédio para a cura.

Mas não cura.

Sua poesia é inútil, mas é bela!

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Sobre o silêncio

Entre quatro paredes úmidas, cobertas pelo mofo, Sálvio e Ulisses encolhem-se no chão frio sob um foco pálido de luz. Em cantos opostos estudam-se e miram-se distraindo suas mentes cansadas e sombrias. Um tornava-se fonte de curiosidade para o outro. Espelhos de carne lutando para capturar na umidade do grande cubo de concreto o frágil elo que lhes asseguraria a humanidade, a ancestral herança. Mas os espelhos começavam a se deteriorar. Características que antes os igualavam tornavam-se suspeitas e as diferenças transbordavam da memória antes adormecida de Sálvio e Ulisses.

O motivo pelo qual estavam ali, presos, suas causas ou prováveis conseqüências, não exercia a menor influência no fluxo incessante de pensamentos que desfilavam diante de seus olhos; pensamentos transformados em fantasmas de aspectos desproporcionais e assustadores.

Sálvio e Ulisses não se olhavam mais como reflexos. A ancestral herança não era algo tangível e próxima que estava somente a alguns curtos passos. A ancestral herança estava dentro, profundamente dentro, abrigada no recôncavo mal iluminado.

Aquele cubículo frio e escuro, no meio do nada, sem tempo ou porquês não dava nenhum sentido à existência dos fantasmas, já que as condições de igualdade apagavam qualquer traço de diferenciação; por este mesmo motivo Sálvio e Ulisses necessitavam dos fantasmas para se manterem afastados da descaracterização que insistia em fundir suas histórias e seus corpos em um só, feito a imagem e semelhança de seus atos.

Sálvio e Ulisses sabem da existência dos fantasmas e sentem calorosamente a ancestral herança, porém, desconfiam do que sabem e sentem. Eles já não têm tanta certeza até que ponto o que sabem, sentem ou pensam é de um ou de outro.

Rancores seculares vinham à tona, agitando os fantasmas que se trombavam no cubículo. Agora, Sálvio e Ulisses olhavam cada um para o seu próprio corpo. Ulisses olhava para suas cicatrizes, para suas mãos calejadas; Sálvio admirava seus músculos torneados e sua pele lisa. Uma expressão antes desconhecida de ambos se delineava em suas faces. Os olhos novamente se cruzavam no vazio do cubículo. Ulisses levanta-se e caminha até Sálvio que permanece sentado. Ulisses ergue as mãos, olhando para elas:

-Minhas unhas são grandes e afiadas! Precisamos de algo que nos separe definitivamente!

-Transformando toda igualdade em diferença!

-E o que nos iguala ou diferencia?

-A violência iguala! Os meios e modos de exercê-la diferenciam!- Num movimento brusco, Sálvio, ameaçador, aponta o dedo para Ulisses- Mas nem pense...

Ulisses desfere socos e pontapés sobre a cabeça de Sálvio. Alucinado, enquanto chuta e soca, grita:

-A disposição dos órgãos iguala, o corpo diferencia!- Arranha a face de Sálvio com as unhas, errando o golpe que tentava arrancar-lhe os olhos- O desejo do mando iguala, o mando diferencia!

Sálvio desvencilha-se dos golpes e levanta-se, correndo em direção à porta. -Não fuja! É uma ordem!

Ulisses com passos firmes e punhos cerrados dirige-se até Sálvio, que desesperado agarra-se à porta. Ulisses segura-o pelo pescoço e puxa-o. A porta se abre. Sálvio e Ulisses, caídos no chão, observam estáticos e boquiabertos a porta escancarada. Ulisses levanta-se e caminha até ela, Sálvio o acompanha. Parados sob o batente, sentem o calor do dia em suas faces esbranquiçadas. Os raios de sol que penetram no cubículo fazem o verde do mofo tornar-se mais vivo e o foco de luz pálida desaparecer. Sálvio anima-se:

-Livres!?

-Sim!

-Vou sair!

-Vá!

-Sozinho!?

-Definitivamente separados!

-Sim...E sós!

-Sós!

-Vamos juntos!

-Não posso!

Ulisses vira-se e caminha em direção ao centro do cubículo. Sálvio esboça um pequeno passo para além da porta mas desiste; vira-se para Ulisses:

-A prisão iguala a todos!

-Iguala na existência e diferencia na circunstância!

-Sozinhos não seremos nada!

-Precisamos um do outro!

-A ancestral herança é uma grande mentira!

-Guardaremos este segredo!

Ulisses caminha até um canto e senta-se. O último fantasma é dissipado pelo vento que entra. Sálvio fecha a porta, se dirige ao canto oposto ao de Ulisses e senta-se. Sálvio e Ulisses miram-se, mantendo o frágil elo que lhes assegura a humanidade.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Jardim Descoberto


Não há tempo para arrependimentos, não há mais como voltar.

Daqui pra frente perdem-se todos os valores em busca de novas pairagens.

Tudo deve ser realizado com violência desmedida, nada deve ser evitado ou escondido.

Cada passo meticulosamente descuidado deve pisar grosseiramente o jardim descoberto, deixando pegadas a serem seguidas quando o sol raiar.

Todos os pudores devem ser deixados de lado junto com a roupa suja e empoeirada.

Não há porque voltar!

Estende-se aos olhos o horizonte que não se pode ver na noite negra.

Às costas apenas a grande caverna com as paredes repletas de imagens que o fogo ilumina.

É preciso ir adiante e colocar-se no meio de tudo até que o sol do meio-dia surja sobre a cabeça.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Inspiração

Jato violento, vertiginoso, vagabundo, voraz. Gota a gota transborda o tempo instante infinito.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Agora



segunda-feira, 28 de julho de 2008

1,99


Como se mede o valor do Homem?

Dê-me uns trocados e direi!

Que sejam notas inteiras,

manchadas pela pólvora,

pelo sangue,

pelo suor,

pelo álcool,

pelo sêmen,

pelo ópio,

pelo éter.

Notas inteiras para que eu as troque

por qualquer mercadoria

exposta na prateleira de metal frio

do centro nervoso do Homem

em cujo “outdoor” se pode ler:

“VENDE-SE! QUALQUER MERCADORIA POR 1,99!”

Vamos! Dê-me uns trocados!