Entre quatro paredes úmidas, cobertas pelo mofo, Sálvio e Ulisses encolhem-se no chão frio sob um foco pálido de luz. Em cantos opostos estudam-se e miram-se distraindo suas mentes cansadas e sombrias. Um tornava-se fonte de curiosidade para o outro. Espelhos de carne lutando para capturar na umidade do grande cubo de concreto o frágil elo que lhes asseguraria a humanidade, a ancestral herança. Mas os espelhos começavam a se deteriorar. Características que antes os igualavam tornavam-se suspeitas e as diferenças transbordavam da memória antes adormecida de Sálvio e Ulisses.
O motivo pelo qual estavam ali, presos, suas causas ou prováveis conseqüências, não exercia a menor influência no fluxo incessante de pensamentos que desfilavam diante de seus olhos; pensamentos transformados em fantasmas de aspectos desproporcionais e assustadores.
Sálvio e Ulisses não se olhavam mais como reflexos. A ancestral herança não era algo tangível e próxima que estava somente a alguns curtos passos. A ancestral herança estava dentro, profundamente dentro, abrigada no recôncavo mal iluminado.
Aquele cubículo frio e escuro, no meio do nada, sem tempo ou porquês não dava nenhum sentido à existência dos fantasmas, já que as condições de igualdade apagavam qualquer traço de diferenciação; por este mesmo motivo Sálvio e Ulisses necessitavam dos fantasmas para se manterem afastados da descaracterização que insistia em fundir suas histórias e seus corpos em um só, feito a imagem e semelhança de seus atos.
Sálvio e Ulisses sabem da existência dos fantasmas e sentem calorosamente a ancestral herança, porém, desconfiam do que sabem e sentem. Eles já não têm tanta certeza até que ponto o que sabem, sentem ou pensam é de um ou de outro.
Rancores seculares vinham à tona, agitando os fantasmas que se trombavam no cubículo. Agora, Sálvio e Ulisses olhavam cada um para o seu próprio corpo. Ulisses olhava para suas cicatrizes, para suas mãos calejadas; Sálvio admirava seus músculos torneados e sua pele lisa. Uma expressão antes desconhecida de ambos se delineava em suas faces. Os olhos novamente se cruzavam no vazio do cubículo. Ulisses levanta-se e caminha até Sálvio que permanece sentado. Ulisses ergue as mãos, olhando para elas:
-Minhas unhas são grandes e afiadas! Precisamos de algo que nos separe definitivamente!
-Transformando toda igualdade em diferença!
-E o que nos iguala ou diferencia?
-A violência iguala! Os meios e modos de exercê-la diferenciam!- Num movimento brusco, Sálvio, ameaçador, aponta o dedo para Ulisses- Mas nem pense...
Ulisses desfere socos e pontapés sobre a cabeça de Sálvio. Alucinado, enquanto chuta e soca, grita:
-A disposição dos órgãos iguala, o corpo diferencia!- Arranha a face de Sálvio com as unhas, errando o golpe que tentava arrancar-lhe os olhos- O desejo do mando iguala, o mando diferencia!
Sálvio desvencilha-se dos golpes e levanta-se, correndo em direção à porta. -Não fuja! É uma ordem! Ulisses com passos firmes e punhos cerrados dirige-se até Sálvio, que desesperado agarra-se à porta. Ulisses segura-o pelo pescoço e puxa-o. A porta se abre. Sálvio e Ulisses, caídos no chão, observam estáticos e boquiabertos a porta escancarada. Ulisses levanta-se e caminha até ela, Sálvio o acompanha. Parados sob o batente, sentem o calor do dia em suas faces esbranquiçadas. Os raios de sol que penetram no cubículo fazem o verde do mofo tornar-se mais vivo e o foco de luz pálida desaparecer. Sálvio anima-se:
-Livres!?
-Sim!
-Vou sair!
-Vá!
-Sozinho!?
-Definitivamente separados!
-Sim...E sós!
-Sós!
-Vamos juntos!
-Não posso!
Ulisses vira-se e caminha em direção ao centro do cubículo. Sálvio esboça um pequeno passo para além da porta mas desiste; vira-se para Ulisses:
-A prisão iguala a todos!
-Iguala na existência e diferencia na circunstância!
-Sozinhos não seremos nada!
-Precisamos um do outro!
-A ancestral herança é uma grande mentira!
-Guardaremos este segredo!
Ulisses caminha até um canto e senta-se. O último fantasma é dissipado pelo vento que entra. Sálvio fecha a porta, se dirige ao canto oposto ao de Ulisses e senta-se. Sálvio e Ulisses miram-se, mantendo o frágil elo que lhes assegura a humanidade.